
G.B. tem apenas 14 anos. Pela idade ela é ainda uma criança. Mas na prática essa não é a realidade. Abusada desde os 12 anos de idade, quando se revoltava era ameaçada. Passou a se sujeitar ao padrasto para que ele não abusasse da irmã menor. Todos os dias dormia e acordava com o medo de que as ameaças contra a irmã de 10 anos fossem cumpridas. A mãe, consciente da situação, cedia à filha para que o marido continuasse a manter a casa. G.B. não está sozinha. Assim como ela milhares de crianças, no Brasil e em Bagé, já passaram ou passam por esta situação. Mas, G.B. teve a coragem que poucas têm. Hoje, o padrasto está preso, pois apesar da mãe pedir o silêncio, a adolescente denunciou.
O abuso sexual é a principal forma de violência contra a criança e o adolescente
O fator mais comum às vítimas de abuso ou agressão é a culpa. Ela atinge as crianças, deixa-as tristes e revoltadas; são elas que, de certa forma, pagam pelo crime cometido por outro, quando são afastadas do convívio familiar. As mães, em sua maior parte, são coniventes; algumas vezes elas ajudam na dose de culpa, porque dependem sentimental e financeiramente do agressor e culpam a criança por ter transparecido a agressão. Algumas chegam a dizer que a filha seduziu o marido, e a criança, acuada, se pergunta o que fez de errado. O agressor, na maioria das vezes, é alguém da família, próximo e íntimo da criança, e de quem não se desconfia. A presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), Miriam Mathei, diz que o crime sexual acontece devido a um fator psicológico do agressor e que não tem cura, apenas tratamento. Os avós são apontados como principais agressores, e, depois, os padrastos.
O abuso sofrido é normalmente expressado pela criança por meio de desenhos. Ao ser agredida, costuma usar diversas formas de se comunicar e demonstrar o que aconteceu. Altera o comportamento, se isola, agride e se deprime. Quando sofre algum trauma, elas desenham com cores escuras, coisas sombrias, com deformidades. A presidente do Comdica conta que a criança sabe que o que lhe aconteceu é errado, pois ela não vê esta realidade a seu redor. “Uma das crianças que atendi desenhou o padrasto em cores escuras, com os olhos vermelhos e um dedo enorme.”, afirma Miriam. A deformidade no desenho, de acordo com a presidente, correspondia ao objeto da agressão.
Toda a casa deveria ser um lugar seguro em que os pais deveriam proteger os filhos. Deveria. Porque estes e outros conceitos acabam não sendo reais. Para tratar uma criança agredida é preciso muito cuidado. Na instituição, que atende meninas em situação de risco em Bagé, o assunto é tratado com muita atenção e tato pelas funcionárias. As meninas contam as histórias de vida de maneira informal: numa situação cotidiana, numa brincadeira, na leitura de uma revista, de um livro, numa cena de televisão ou então por confiança e carinho nas funcionárias. O abrigo pode gerar certa acomodação por parte da família da criança ou adolescente. Ali as crianças são bem cuidadas, se alimentam e se vestem sem depender dos responsáveis, como conta a psicóloga Márcia Segredo. “O abandono é um tipo de violência porque elas são agredidas, mal tratadas, abusadas, saem do contexto familiar e vêm parar num ambiente acolhedor, mas estranho.”, afirma a psicóloga da Casa de Atenção à Menina.
Na questão da adoção muitos fatores influenciam: apenas em último caso a criança entra em processo de adoção. A psicóloga e a diretora da Casa da Menina dizem que dificilmente uma criança com mais de três anos se adapta a uma nova família. Apesar de todos os problemas, o eixo é sempre a família verdadeira. “Nós não largamos nossos filhos por piores que sejam as más criações e problemas que gerem, mas com uma criança adotada as pessoas não seguem esta regra. Nunca enfeitamos a história das meninas. Falamos os problemas de cada criança antes de serem adotadas, mesmo assim as pessoas se arriscam e magoam algumas crianças ao devolvê-las.”
Em função do ambiente em que vive, a criança aprende a manipular situações para conseguir, através da pena das pessoas, atingir seus objetivos. Algumas meninas desencaminham as que estão adaptadas à instituição. “Ao contrário das meninas que saem de uma família mesmo que conturbada, as que vivem na rua acabam não suportando um ambiente com regras. Essas são chamadas de cíclicas, pois não duram muito tempo na instituição. Elas fazem as meninas se revoltarem com a instituição e as ajudam a fugir.”, conta a diretora da Casa de Atenção a Menina, Suzana Grillo.
Com fome, cansadas de trabalhar, de serem abusadas e agredidas de várias formas. Por vezes, choram. Tentam entender a realidade, que já é tão difícil sem tantos problemas. Na inocência, esperam todo dia que o mundo possa ser melhor. Quando se é criança a vida parece mais simples. Ainda existem crianças sofrendo por ai. Precisamos ficar atentos e ter a sensibilidade para perceber e poder ajudar.
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